A eleição para o Governo do Rio de Janeiro produziu uma daquelas ironias que a política, de tempos em tempos, reserva aos seus protagonistas. O que durante boa parte da campanha poderia ser interpretado como um problema para Anthony Garotinho e uma possível vantagem eleitoral para Eduardo Paes transformou-se, depois da abertura das urnas, em ameaça direta ao projeto do ex-prefeito de voltar a comandar o Estado.
Douglas Ruas terminou o primeiro turno com 49,27% dos votos válidos. Eduardo Paes ficou com 42,76%. A diferença entre o primeiro colocado e a maioria absoluta necessária para liquidar a eleição já no primeiro turno foi mínima.
E é justamente aí que Garotinho volta ao centro da disputa.
O ex-governador recebeu votos suficientes para que a situação jurídica de sua candidatura se tornasse determinante na matemática eleitoral. Seu registro foi indeferido pela Justiça Eleitoral do Rio, mas a questão ainda depende de decisão definitiva do Tribunal Superior Eleitoral.
Enquanto essa definição não ocorre, os votos permanecem no centro de uma batalha jurídica que deixou de interessar apenas a Garotinho. Agora interessa, sobretudo, a Eduardo Paes e Douglas Ruas.
A matemática mudou de lado
Antes da eleição, havia um raciocínio aparentemente simples nos bastidores políticos: a eventual retirada de Garotinho da disputa reduziria a fragmentação dos votos e poderia favorecer o candidato que aparecia na liderança das principais pesquisas.
Eduardo Paes era justamente quem ocupava essa posição.
Levantamentos divulgados às vésperas da eleição chegaram a apresentar cenários nos quais, sem Garotinho, Paes se aproximava ou ultrapassava a barreira necessária para uma vitória no primeiro turno.
A urna, porém, decidiu escrever outro roteiro.
Quem terminou a menos de um ponto percentual dos 50% foi Douglas Ruas.
Assim, aquilo que poderia ter sido interpretado antes como uma circunstância eleitoral favorável a Paes passou a produzir exatamente o efeito contrário.
É uma espécie de “efeito bumerangue” da política: quando a regra permanece a mesma, mas a realidade das urnas muda completamente quem se beneficia dela.
Se os votos de Garotinho forem definitivamente retirados do cálculo dos votos válidos, o denominador da eleição diminui. Douglas Ruas, que já possui 49,27%, ultrapassaria a maioria absoluta necessária para encerrar a disputa no primeiro turno.
Ou seja: o segundo turno entre Ruas e Paes deixaria de existir.
O feitiço e o feiticeiro
Seria exagerado afirmar que alguém poderia prever esse desfecho.
Mas é impossível ignorar a ironia.
Durante a campanha, a eventual inelegibilidade de Garotinho era vista dentro da lógica tradicional da eleição: menos um candidato competitivo significaria votos disponíveis para os demais, especialmente para quem liderava as pesquisas.
Eduardo Paes tinha razões eleitorais evidentes para enxergar com bons olhos um cenário sem Garotinho.
Só que política não é uma ciência exata — e pesquisas tampouco são urnas.
Douglas Ruas cresceu justamente na reta final e chegou ao domingo eleitoral muito acima do que boa parte das projeções indicava anteriormente.
Quando as urnas foram fechadas, não era Paes quem estava à beira dos 50%.
Era Ruas.
E o voto de Garotinho, que poderia ter sido um obstáculo para um triunfo de Paes no primeiro turno, tornou-se paradoxalmente uma espécie de última barreira protegendo a própria sobrevivência eleitoral do candidato do PSD.
Há nisso uma ironia difícil de fabricar até em roteiro de ficção política.
O candidato cuja presença poderia atrapalhar Paes passou a ser, involuntariamente, aquele cujos votos podem garantir a Paes a existência de um segundo turno.
Urnas contrariaram as pesquisas
O episódio também deixa uma mensagem importante sobre a eleição fluminense.
A fotografia final das urnas foi diferente daquela sugerida por boa parte dos levantamentos realizados durante a campanha.
Paes chegou ao domingo eleitoral apresentado como favorito em diversos cenários. Douglas Ruas, entretanto, terminou a votação na liderança e encostado na maioria absoluta.
A mudança altera profundamente a leitura política da disputa.
Ruas não apenas terminou à frente. Passou a depender de uma decisão judicial sobre um terceiro candidato para saber se precisará enfrentar mais três semanas de campanha ou se poderá ser declarado governador eleito já no primeiro turno.
Paes vive situação inversa.
Seu caminho para o segundo turno depende agora da manutenção, no cálculo eleitoral, de votos dados justamente a um adversário cuja situação jurídica esteve sob contestação durante praticamente toda a reta final da campanha.
São as voltas que a política dá.
Decisão passa aos tribunais
A eleição que começou nas ruas, passou pela televisão, pelas redes sociais e terminou nas urnas entrou agora nos tribunais.
O ponto central é o julgamento definitivo da situação eleitoral de Anthony Garotinho.
Até que haja uma manifestação definitiva, o cenário formal continua sendo de segundo turno entre Douglas Ruas e Eduardo Paes.
Mas existe uma enorme diferença entre organizar uma campanha para um segundo turno e saber se esse segundo turno efetivamente acontecerá.
O calendário eleitoral aumenta a pressão.
A nova votação está marcada para 25 de outubro e a campanha precisa rapidamente reorganizar alianças, programas eleitorais, agendas, debates e estratégias.
Por isso, existe forte expectativa política em torno de uma definição rápida do caso, embora não haja, até o momento, uma data oficialmente estabelecida para o julgamento definitivo.
Cada dia de indefinição produz uma situação incomum: dois candidatos precisam se comportar como concorrentes de um segundo turno que ainda pode ser apagado pela Justiça Eleitoral.
Paes precisa torcer por Garotinho?
Eis talvez a maior ironia de todas.
Na prática eleitoral, Eduardo Paes passou a ter interesse objetivo na manutenção dos votos atribuídos a Anthony Garotinho dentro do universo dos votos válidos.
Não significa apoio político, aproximação ou qualquer composição entre os dois.
É simplesmente matemática.
Com os votos de Garotinho computados, Douglas Ruas permanece abaixo dos 50% e há segundo turno.
Sem eles, a conta muda.
A política fluminense, portanto, chegou a uma situação curiosa: um candidato que poderia ser considerado inconveniente para Paes durante a campanha tornou-se peça decisiva para manter viva a possibilidade de Paes disputar o governo em 25 de outubro.
Nenhum estrategista gostaria de depender justamente da variável que imaginava ser dispensável.
Mas as urnas têm esse costume pouco elegante de desobedecer estratégias.
O julgamento que vale uma eleição
Independentemente do resultado judicial, o episódio já entra para a história das eleições do Rio como um dos mais singulares dos últimos anos.
Não se trata apenas de decidir a validade dos votos de um candidato.
Na prática, a decisão poderá definir se o Estado terá segundo turno ou se Douglas Ruas será declarado vencedor no primeiro.
Para Eduardo Paes, a diferença é ainda mais dramática: significa continuar candidato ao Governo do Estado ou assistir ao encerramento da eleição por uma recontagem jurídica dos votos válidos.
E há uma ironia final impossível de ignorar.
Na política, costuma-se celebrar quando uma decisão aparentemente desfavorável ao adversário parece abrir caminho para uma vitória própria.
O problema é que, algumas vezes, o caminho aberto leva exatamente para o lado contrário.
No Rio de Janeiro de 2026, a Justiça Eleitoral ainda dará a palavra definitiva.
Mas as urnas já deixaram sua provocação: antes de comemorar a retirada de uma pedra do caminho, convém verificar para onde ela vai rolar.